Ondas de calor já causaram cerca de 120 mil mortes no Brasil.
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O calor extremo deixou de ser apenas um desconforto passageiro. Um estudo inédito conduzido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA) revelou que aproximadamente 120 mil mortes ocorridas no Brasil entre 2000 e 2019 podem estar associadas às ondas de calor.
A pesquisa, considerada a primeira em escala nacional a cruzar dados de temperatura, internações hospitalares e mortalidade, mostra que o calor extremo representa um risco crescente para a saúde pública, especialmente entre idosos, pessoas mais pobres e grupos socialmente vulneráveis.
Os números ajudam a compreender que as mudanças climáticas não são um problema distante. Seus impactos já estão acontecendo e afetam diretamente a vida das pessoas.
Como o calor extremo afeta a saúde?
Segundo o estudo, as ondas de calor foram associadas a cerca de 120 mil mortes em duas décadas. Isso representa uma média de aproximadamente 6 mil mortes por ano relacionadas ao agravamento de condições de saúde durante períodos de temperaturas extremas.
Os pesquisadores identificaram um aumento significativo nos casos de doenças respiratórias, insuficiência renal, infecções urinárias e problemas cardiovasculares. Em muitos casos, o calor não é a causa direta da morte, mas atua como um fator que agrava doenças preexistentes e aumenta o risco de complicações.
O grupo mais afetado foi o de idosos com mais de 65 anos, responsáveis por aproximadamente 80% das mortes associadas às ondas de calor. Isso ocorre porque o organismo perde parte da capacidade de regular a temperatura corporal com o avanço da idade, tornando-se mais vulnerável aos efeitos do calor intenso.
A pesquisa também identificou que pessoas com menor escolaridade e condições socioeconômicas mais precárias apresentam maior risco durante eventos extremos, evidenciando que as mudanças climáticas também aprofundam desigualdades sociais já existentes.
O que as ilhas de calor urbanas têm a ver com isso?
Embora as mudanças climáticas globais contribuam para o aumento da frequência e intensidade das ondas de calor, as características das cidades podem agravar ainda mais o problema.
As chamadas ilhas de calor urbanas ocorrem quando áreas com grande concentração de concreto, asfalto e edificações registram temperaturas superiores às de regiões com maior cobertura vegetal.
Durante o dia, esses materiais absorvem grandes quantidades de energia solar. À noite, liberam esse calor lentamente, mantendo o ambiente aquecido por mais tempo. O resultado é uma cidade mais quente, com maior desconforto térmico e maior risco para a saúde da população.
Diversos estudos brasileiros demonstram que áreas arborizadas apresentam temperaturas significativamente menores quando comparadas a bairros densamente urbanizados e com pouca vegetação. Isso significa que decisões de planejamento urbano influenciam diretamente a exposição das pessoas ao calor extremo.
Arborização e áreas verdes salvam vidas
Quando se fala em árvores, muitas vezes o debate fica restrito à estética urbana. No entanto, a ciência mostra que a arborização é também uma ferramenta de saúde pública.
Árvores fornecem sombra, reduzem a temperatura das superfícies, melhoram a qualidade do ar e contribuem para o resfriamento do ambiente por meio da evapotranspiração. Em conjunto, esses fatores ajudam a reduzir os efeitos das ilhas de calor e tornam os espaços urbanos mais seguros durante períodos de altas temperaturas.
Por isso, especialistas defendem que políticas de adaptação climática devem incluir programas permanentes de arborização, preservação de áreas verdes, recuperação de rios urbanos e ampliação de parques e espaços públicos.
Essas medidas não eliminam as ondas de calor, mas ajudam a reduzir seus impactos sobre a população.
Um desafio para cidades como Criciúma
Recentemente, Criciúma registrou sensação térmica superior a 50°C. Embora eventos extremos sempre tenham ocorrido, especialistas alertam que episódios de calor intenso tendem a se tornar mais frequentes nas próximas décadas.
Diante desse cenário, investir em arborização urbana, proteger áreas naturais e planejar o crescimento da cidade de forma sustentável deixa de ser apenas uma questão ambiental. Trata-se de uma estratégia para proteger vidas.
Os dados da Fiocruz mostram que o calor extremo já está causando impactos concretos na saúde dos brasileiros. A pergunta que fica é: estamos preparando nossas cidades para enfrentar essa nova realidade?
Quanto mais demorarmos para agir, maior será o custo humano, social e econômico das próximas ondas de calor.





